O Pecado Mortal

O Pecado Mortal

Postado em:
Blog - Formação
- 01/07/2019 11:33:10

I – Tu, minha filha, cometes o pecado e não sentes dele horror algum.... Vives tranquila; parece que te rejubilas na tua malícia, porque não compreendes talvez o mal que fazes e o estado miserável em que se acha a tua alma depois do pecado. Queres tu conhecê-lo? Considera a terra em que vives e o grande número de criaturas que a habitam. Levanta os olhos para o céu, contempla o sol que o ilumina, a lua e as estrelas que brilham no silêncio da noite. Se pudesses conhecer a sua grandeza desmedida, ficarias tomada de espanto e assombro. O sol é milhões de vezes maior que a terra e muitas estrelas o excedem em grandeza. Houve tempo em que nenhum desses astros existiam. Quem os criou? Deus. Bastou-lhe um momento e uma palavra. – Faça-se, disse ele, e tudo se fez. – Esses grandes corpos celestes e a própria terra que te suporta, quem os tem suspensos no ar e lhes dá esses movimentos regulares que distinguem o dia da noite, marcam as estações e fecundam a natureza? Tudo foi regulado pela onipotência de Deus. Ah! Minha filha, tu temerias ofender um rei da terra com receio de um castigo que te faria vergonha, e não temes ofender Deus, em comparação de quem todos os reis não são mais do que uma sombra, um pouco de pó. Podem os reis extrair do nada um só grão de areia, ter suspensas no ar sem apoio uma leve pluma e torná-la dócil ao seu mando? Nunca o poderão. De que maneira pois, ó minha filha, tu que não ousarias ofender os reis, que não são mais do que homens, ousas ofender esse rei onipotente a quem os anjos e santos adoram e diante de quem tremem as potências celestes? Um só de seus olhares irritados faria estremecer a terra, e as mais altas montanhas, fulminada por sua cólera, reduzir-se-iam a cinza em um momento. Ah! Que te sucederia, imprudente, se continuasses a ultrajá-lo?

 

II – Considera agora até que excessos de audácia tens chegado cometendo o pecado. Julgavas tu, talvez, que ninguém observava as tuas ações criminosas, nem ouvia os indignos colóquios por meio dos quais tens tantas vezes ofendido o teu Deus? Tu és cristã, e a fé que professas te ensina que a seus olhos nada pode ficar oculto. Nem as paredes nem as trevas o impedem de ver; Ele penetra até nos imos mais recônditos do coração humano, distingue os seus pensamentos com todos os detalhes, complacências e desejos. Deus vê pois tudo aquilo que fazes no segredo da tua câmara, na sombra da noite, só ou com as tuas companheiras, em público ou em particular. Deus ouvia-te quando excitada pela cólera rompias em imprecações e davas a teus pais insolentes respostas, quando tinhas com as tuas companheiras conversas tão contrárias a modéstia de uma menina cristã. Quantas vezes eu mesma tenho visto e ouvido de ti coisas indecorosas! Teria devido gritar com sentimentos – Filha ingrata, eis ai como honras a teu Deus e a tua Mãe – Muitas vezes, meninas cristãs muito culpadas, e que não tem de cristãs mais que o nome, se animam a corresponder aos desejos daqueles que tentam arrebatar-lhes com a graça de Deus o mais belo tesouro que podem possuir neste mundo. Dizem eles para consigo: “Basta que nosso pai ou nossa mãe o ignore, basta que ninguém o saiba”. Ó insensatas! Ó desgraçadas! Podem elas acrescentar que Deus o não saberá! A este pensamento, que é suficiente para converter uma Thais e fazer dessa mulher escandalosa um prodígio de penitência, quantas há que ficam insensíveis até não corar de ofender Deus, sabendo que ele as observa e as vê!? Tu excedes-te na presença de Deus no que não ousarias fazer à vista das tuas próprias companheiras. Deus não pode alcançar de ti o respeito que tens pelos homens. Onde está por conseguinte a tua fé? É assim que temes Deus, que desejas a salvação.

III – Mas há alguma coisa pior, minha filha, sim alguma coisa pior. Observa em seus dons a beneficência de teu Deus, e dize-me depois se há alguma em ti que não seja dádiva d’Ele. Quando cometes o pecado, não somente desprezas Deus calcando aos pés a sua santíssima lei, não somente praticas o mal a sua vista, mas além disso serves-te desses dons para lhe declarar guerra. Se ele te não tivesse criado, não o terias nunca ofendido. Se a primeira falta que cometestes te tivesse tirado a vida, não terias renovado as tuas injurias. Nunca terias preferido imprecações, murmurado queixumes, dito palavras indecorosas, se te tivesse feito nascer muda. Nunca terias procurado com afinco a vaidade, os adornos, as festas e os divertimentos, com tanta inconveniência e escândalo para o próximo, se te não tivesse concedido dom algum de graça e de beleza. Pela razão de que Deus se mostrou para contigo pródigo dos seus dons, na tua extrema ingratidão, tens-te servido deles para o ultrajar. Não merecia mil suplícios, não seria indigno de viver o pobre que, depois de receber a esmola do seu benfeitor, se servisse dela para comprar um punhal e lho enterrasse no peito? Os bens da natureza e da graça que possuis são todos dons da sua bondade. Em lugar de agradeceres por eles e de o glorificares, serviste-te deles para o ofender e desprezar. Ah! Pensa, minha filha, pensa no teu excesso de ingratidão e vê se te é possível deixar de dar alguns suspiros de dor, de derramar algumas lágrimas de arrependimento, por conduta tão indigna para com Deus.

Afetos. Ó, Mãe Santíssima, não sei o que deva confundir-me mais, se a incrível paciência do meu Deus em me sofrer, se a minha incrível audácia em o ofender. Que terror, se enquanto cometia o pecado Deus se me apresentasse com sua majestade, ou se vos tivesse visto irritada contra mim, censurado a minha audácia. Mas quanto fui culpada! Porque eu não via Deus, não me via ele? Não me estava presente? Como nesse momento estavas velada a meus olhos ó, fé santa! Não te tinha perdido; mas, ai! A minha maldade obscurecia-me a razão. Ah! As vossas palavras tem me instruído, eu o reconheço, ó, querida Mãe. Sim, tenho me servido dos dons de Seus contra ele próprio. Horrível ingratidão de que me tornei mil vezes culpada. Ó, pacientíssimo Salvador, como tendes vós suportado um ser tão vil como eu, tão temerária audácia? Inseto desprezível, tenho ousado não vos respeitar nem temer; como não tendes esmagado a cabeça que contra vós se sublevava? Ó, bondade só própria de Deus e de quem as misericórdias são infinitas! Maria, augusta Mãe, ouvi os meus protestos e servi-me de testemunha diante da majestade divina. Quero que estes membros que tem sido instrumento de penitência, a fim de reparar tanto quanto possível as minhas culpas passadas. Rogai a Deus que, ajuntando novas misericórdias as que me em concedido, mude o meu coração, fazendo-lhe amolda a inflexível dureza e o torne de hoje em diante tão dócil, às suas vontades, quanto tem sido rebelde e obstinado até ao presente.

 

Capítulo do livro: Maria Falando ao Coração das Donzelas.

Categorias

Fique informado!

+ Posts

Resenha Livro A Mulher Cristã e o Sofrimento
Resenha Livro A Mulher Cristã e o Sofrimento
Resenha Livreto de Santa Isabel Rainha de Portugal
Resenha Livreto de Santa Isabel Rainha de Portugal
Resenha do livro A moça de caráter
Resenha do livro A moça de caráter
Resenha livreto A vida de Santa Inês
Resenha livreto A vida de Santa Inês
Resenha do livro O Meu Retiro
Resenha do livro O Meu Retiro

Receba novidades por email

E-mail cadastrado com sucesso.