Uma palavra acerca da agricultura

Uma palavra acerca da agricultura

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Blog - Formação
- 07/01/2020 11:28:11

Seria agora ocasião de falar das diversas profissões e carreiras que podem abraçar os jovens. Se excetuarmos algumas que são marcadas de infâmia, e que, por conseguinte, não podem ser escolhidas por uma mãe cristã, todas são úteis para bem da sociedade, todas têm dado eleitos ao Céu. Abster-nos-emos de tratar das vantagens e dos perigos que cada uma delas pode oferecer. Falaremos de um estado muito desprezado e, todavia, estimável, sob tantas relações. Falo da agricultura, dessa arte que se pode chamar a base da formação dos povos; a agricultura de que todos os poetas cantaram os encantos, e que tão honrada foi por todos os povos, a ponto de ser considerada a honra da virtude. Segundo a expressão dos nossos Livros Santos, a agricultura foi criada pelo Altíssimo, e o próprio Deus nos proíbe de a desprezar. É porque ela produz a saúde, a virtude e a fé, três dos mais preciosos bens.

Exclama um escritor contemporâneo: “A loja, o armazém, o escritório, o gabinete, são lugares bem tristes, nauseabundos e doentios! O quanto sofrem aí dentro encerrados esses pobres forçados que a indústria, o comércio, o estudo, e os negócios aí retêm de manhã até à noite, em que o corpo se tortura e a alma se aniquila! Mas a oficina do aldeão é a imensidade dos campos!”. Aí, sob a benéfica influência de um ar puro e abundante, desenvolvem-se as forças físicas do lavrador, que é sustentado por alimentos sãos e fortificado por violentos, mas salutares, labores. Por isso, que quem quiser encontrar membros vigorosos, corpos robustos e velhos ainda ágeis e valentes, embora em avançada idade, nada mais tem do que dar um passeio pelas aldeias e travar conhecimento com os seus habitantes.

Com a saúde, floresce muitas vezes a virtude no seio da vida campestre. Os penosos trabalhos da agricultura, fatigando o corpo, reprimem-lhes as revoltas. A alimentação simples e frugal do lavrador deixa adormentado o fogo das paixões, que os exemplos perversos do mundo não são capazes de despertar. É também entre os lavradores que se encontra ainda viva essa fé dos nossos pais, que parece hoje prestes a extinguir-se. Escreve monsenhor Plantier: “Se há um fato que não sofre contestação é que as povoações agrícolas são, por toda a parte, as mais religiosas”. Em outros estados, não sendo o homem testemunha senão das obras do homem, esquece mais facilmente o seu Criador, cuja ação não lhe é perceptível; e, sentindo-se autor de tudo o que o rodeia, conta consigo próprio e julga poder passar sem Deus. Mas o lavrador está sempre em face das obras maravilhosas do Criador. Todos os dias, o Senhor patenteia a seus olhos os tesouros do seu poder e da sua misericórdia e, muitas vezes, também faz estalar a sua cólera. As flores e os frutos; as neves do inverno e os fortes calores do estio; o orvalho bem-facejo e a saraiva destruidora, o sol que fecunda e a nuvem negra onde se amontoam as trovoadas, tudo isso fala de Deus ao lavrador e lhe faz sentir a sua dependência d’Aquele de cuja misericórdia ele espera o pão de cada dia e cuja cólera, caso se desencadeie, o deixaria sem recursos.

Além disso, o lavrador, na sua aldeia, está muito mais ao abrigo da impiedade que o habitante das cidades, porque as publicações antirreligiosas poucas vezes ali chegam. Por isso, venera o sacerdote, respeita a autoridade da Igreja, cujas leis se preza de cumprir, acata a religião e os seus dogmas.

Que mais poderemos dizer acerca das consolações da vida dos campos, das doçuras da família que só o lavrador sabe gozar? O que dissemos é mais que suficiente para mostrarmos quanto a agricultura é útil e digna de respeito pelas grandes vantagens que prodigaliza Disse, há muitos séculos, um poeta: “Ó lavradores! Que felizes seríeis, se soubésseis apreciar todos os bens que a agricultura vos proporciona!” E, dirigindo-nos às mulheres do campo, diremos: “Nada mais podeis desejar para vossos filhos que a saúde, a virtude e a religião; com as doçuras de uma vida simples e pacífica, que a agricultura abundantemente lhes fornece”. Longe, pois, de os desencaminhar, de os desviar de uma profissão tão nobre e tão salutar, fazei-a amar e estimar, mostrando-lhes a sua utilidade e os seus encantos. Insuflai-lhes gosto para os trabalhos campestres e para essa vida laboriosa e rude, que é a guarda da sua inocência. Ensinai-lhes a amarem esse campo, regado pelo suor dos seus pais, e essa choupana onde morreram os seus avós. Inspirai-lhes aversão por essa mania, hoje tão espalhada, de fugirem para as cidades, embora haja quem lhes aconselhe erradamente a fazerem-no.

Mas hoje segue-se, infelizmente, outro caminho. Apenas um rapaz atinge os quinze anos e mandam-no procurar emprego para a cidade. As raparigas abandonam o seu tugúrio para se transformarem em aprendizes de costureira ou em criadas de sala de qualquer casa. Ou, então, amontoam-nas em oficinas, sem se preocuparem do que elas aí poderão aprender ou dos exemplos que terão diante dos olhos. Mas, dizem os pais, aí ganham mais e com menor trabalho. Pais insensatos, que assim raciocinais(!). Não pensais em procurar para vossos filhos senão o bem-estar material, os vestuários à moda e uma comida mais delicada? A inocência não vale nada? E a sua salvação eterna? Pois quê(!). Atirais as vossas filhas para longe, para um mar tempestuoso, onde provavelmente naufragarão, e, perdida a virtude e talvez a fé, consolais-vos com o pensamento da abundância em que vivem(!). São esses os vossos sentimentos cristãos?

Mas essas grandezas, esses sonhos de felicidade, dificilmente se realizam, porque, se na cidade se podem encontrar empregos mais lucrativos, gasta-se também muito mais e a saúde altera-se com muito mais facilidade. Diz um escritor: “A vida no campo é menos brilhante, mas é mais segura e mais sólida; o dinheiro colocado na terra, está sempre na mesma; mas, na indústria, passa uma borrasca e leva tudo. Há seis meses um homem era rico, hoje está crivado de dívidas. No campo, são menores as soldadas, mas podeis trabalhar todos os dias. Além disso, vem uma perturbação nos negócios, uma exuberância de produtos, e eis milhares de operários postos na rua. Hoje, nas grandes cidades, está tudo cheio de desgraçados, de pais de família que veem agonizar os seus queridos filhos, e que nos veem dizer: ‘Salvai-me, tende piedade de meus filhos; trabalharei muito barato; mas antes quero ganhar alguns soldos do que mendigar’. Eis o que nós vemos todos os dias, o que nos aflige. Para terminar: onde se encontra a grande massa dos pobres? É no campo ou na cidade?”

 

Formação retirada do livro: A Mãe Segundo a Vontade De Deus

Disponível na livraria caritatem, para adquiri-lo clique aqui.

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